
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Histórias em Quadrinhos buscando seu lugar na arte e no ensino.
Imagens datadas da pré-história, como as inscrições rupestres marcadas nas cavernas, já mostravam a preocupação em se narrar histórias através de desenhos sucessivos.
Formas de manifestações artísticas como mosaicos, afrescos e tapeçarias, aproximaram-se do gênero narrativo que hoje chamamos história em quadrinhos, pois já se produziam técnicas que tornavam possíveis os registros da história por meio de uma seqüência de imagens.
Convive-se com as histórias em quadrinhos há muito tempo e, talvez por isso, não se perceba sua real importância. É possível, por meio delas, demonstrar insatisfação contra uma forma de governo, derrubar regimes, assumir posições políticas, fazer uma viagem interplanetária, vagar pelo velho-oeste, passear pela inocência do universo infantil e também dos sonhos. Com o intuito de ser compreendida inclusive por analfabetos, tem sido utilizada nas últimas décadas como excelentes manuais de instruções, em casos de procedimentos de emergência em aviões e fábricas, sendo também reconhecida sua utilidade prática.
As histórias em quadrinhos, atualmente são chamadas de “nona arte” tentando assim ganhar seu “lugar ao sol”. A partir do cinema que é considerado a sétima arte, surgiram muitas tentativas de enquadrar outras expressões artísticas neste ranking, o mais aceito até agora, a fotografia como a oitava arte, as histórias em quadrinhos como a nona arte, os videojogos como a décima e a computação gráfica como a décima primeira, estes padrões ainda não foram oficializados mas já são razoavelmente aceitos.
A primeira arte seria a Música, e respectivamente, a Dança, a Plástica bidimensional (desenho/pintura), a Plástica tridimensional (Escultura), o Teatro, a Literatura, o Cinema, a Fotografia e as Histórias em Quadrinhos.
Embora pudessem ter surgido muito antes do cinema, até hoje não são devidamente reconhecidas como forma artística. Elas são muito mais que simples desenhos, são uma fusão entre literatura e desenho, porém com modos próprios de se expressar.
As primeiras histórias em quadrinhos eram muito dependentes do texto, onde cada quadrinho, de formas bem padronizadas, era precedido de um breve enunciado.
Hoje em dia podemos ver conceitos totalmente diferentes nas histórias em quadrinhos. Algumas chegam a quase prescindir do texto, assumindo formas inusitadas e a arte utilizada nos desenhos é cada vez mais arrojada, usando as mais diversas técnicas plásticas.
Acredita-se que esta nona arte já assumiu uma linguagem própria, um modo único de representar seu objetivo, não sendo apenas um simples texto desenhado ou quadros de um filme capturados.
Muitas outras expressões artísticas são amplamente pesquisadas por historiadores, o que infelizmente não acontece com a chamada nona arte, que ainda é marginalizada e pouco pesquisada, pois ainda são vistas como um mero entretenimento infantil.
As histórias em quadrinhos são vistas de forma negativa, muitos artistas desta área ainda se sentem constrangidos ao serem denominados quadrinistas, talvez pela conotação de uma arte feita para crianças, preferem ser chamados de “ilustradores”, “artistas comerciais” ou “cartunistas”, por exemplo. Desta forma, generalizou-se uma certa “baixa-estima”, agravada pelo fato de a perspectiva histórica – que seria capaz de contradizer esta imagem negativa – ter sido obscurecida.
Sinto que uma reversão deste processo está acontecendo com o atual reconhecimento que os autores de quadrinhos tem, como o caso de Art Spiegelman, autor de Maus: relato de um sobrevivente que foi o primeiro quadrinho a ganhar o Prémio Pulitzer de jornalismo. E a adoção pelo governo de várias obras em quadrinhos para distribuição em escolas públicas, isso tudo faz com que se crie uma valorização nas histórias em quadrinhos como uma forma de construção das representações sociais.
Leia o que o editor do BLOG DOS QUADRINHOS, Paulo Ramos postou:
“Uma dica aos professores de cursos pré-vestibulares: digam aos alunos que a nova prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) deve manter a tradição de usar histórias em quadrinhos nas questões.
Outra sugestão: digam aos estudantes que há chances reais de caírem na prova gêneros dos quadrinhos que transitam em veículos midiáticos de grande circulação ou acesso.
Tradução disso: as questões deverão se pautar em charges, tiras cômicas e cartuns.
Se os alunos perguntarem como você, professor, sabe disso, diga o óbvio: sua leitura se pauta nas edições anteriores do Enem e no simulado da prova, divulgado nesta semana.
O simulado tenta apresentar alguns modelos de questões para que os estudantes possam adotar como parâmetro para a prova, que será realizada nos dias 3 e 4 de outubro.
O novo Enem - que antes era realizado num dia só - vai abordar quatro campos temáticos: ciências humanas, ciências da natureza, matemática e linguagens e códigos.
Em dois testes do simulado, os organizadores da prova usaram um cartum do argentino Quino - criador da Mafalda - e uma tira de Chico Bento, de Mauricio de Sousa.”
“O exame - que é elaborado pelo governo federal - ganhou mais destaque neste ano por funcionar como substitutivo do vestibular para algumas universidades, a maioria federais.
As edições passadas da prova costumavam também trabalhar charges e tiras. A leitura de textos em outras linguagens - caso dos quadrinhos - é um dos conteúdos exigidos na prova.“
Will Eisner, um dos maiores quadrinistas do mundo criou muitas histórias em quadrinhos com temática adulta; sendo também um teórico da nona arte, criou uma expressão muito usada para designar este tipo de arte, a “arte seqüencial”:
“A configuração geral da revista de quadrinhos apresenta uma sobreposição de palavra e imagem, e, assim, é preciso que o leitor exerça as suas habilidades interpretativas visuais e verbais. As regências da arte (por exemplo, perspectiva, simetria, pincelada) e as regências da literatura (por exemplo, gramática, enredo, sintaxe) superpõem-se mutuamente. A leitura da revista de quadrinhos é um ato de percepção estética e de esforço intelectual.”
“Em sua forma mais simples, os quadrinhos empregam uma série de imagens repetitivas e símbolos reconhecíveis. Quando são usados vezes e vezes para expressar idéias similares, tornam-se uma linguagem – uma forma literária, se quiserem. E é essa aplicação disciplinada que cria a ‘gramática’ da arte seqüencial.”
EISNER, Will. Quadrinhos e Arte Seqüencial. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 8.
Desta forma, torna-se válido estudar a História por meio da leitura de Histórias em Quadrinhos. Principalmente quando se tem grandioso acervo, cujas imagens esclarecem de forma brilhante o cotidiano de dada época. É assim com a História do Brasil, é assim com Angelo Agostini, grande editor, chargista, repórter visual, ilustrador e quadrinista... assunto de meu próximo post.
aguardem.
Formas de manifestações artísticas como mosaicos, afrescos e tapeçarias, aproximaram-se do gênero narrativo que hoje chamamos história em quadrinhos, pois já se produziam técnicas que tornavam possíveis os registros da história por meio de uma seqüência de imagens.
Convive-se com as histórias em quadrinhos há muito tempo e, talvez por isso, não se perceba sua real importância. É possível, por meio delas, demonstrar insatisfação contra uma forma de governo, derrubar regimes, assumir posições políticas, fazer uma viagem interplanetária, vagar pelo velho-oeste, passear pela inocência do universo infantil e também dos sonhos. Com o intuito de ser compreendida inclusive por analfabetos, tem sido utilizada nas últimas décadas como excelentes manuais de instruções, em casos de procedimentos de emergência em aviões e fábricas, sendo também reconhecida sua utilidade prática.
As histórias em quadrinhos, atualmente são chamadas de “nona arte” tentando assim ganhar seu “lugar ao sol”. A partir do cinema que é considerado a sétima arte, surgiram muitas tentativas de enquadrar outras expressões artísticas neste ranking, o mais aceito até agora, a fotografia como a oitava arte, as histórias em quadrinhos como a nona arte, os videojogos como a décima e a computação gráfica como a décima primeira, estes padrões ainda não foram oficializados mas já são razoavelmente aceitos.
A primeira arte seria a Música, e respectivamente, a Dança, a Plástica bidimensional (desenho/pintura), a Plástica tridimensional (Escultura), o Teatro, a Literatura, o Cinema, a Fotografia e as Histórias em Quadrinhos.
Embora pudessem ter surgido muito antes do cinema, até hoje não são devidamente reconhecidas como forma artística. Elas são muito mais que simples desenhos, são uma fusão entre literatura e desenho, porém com modos próprios de se expressar.
As primeiras histórias em quadrinhos eram muito dependentes do texto, onde cada quadrinho, de formas bem padronizadas, era precedido de um breve enunciado.
Hoje em dia podemos ver conceitos totalmente diferentes nas histórias em quadrinhos. Algumas chegam a quase prescindir do texto, assumindo formas inusitadas e a arte utilizada nos desenhos é cada vez mais arrojada, usando as mais diversas técnicas plásticas.
Acredita-se que esta nona arte já assumiu uma linguagem própria, um modo único de representar seu objetivo, não sendo apenas um simples texto desenhado ou quadros de um filme capturados.
Muitas outras expressões artísticas são amplamente pesquisadas por historiadores, o que infelizmente não acontece com a chamada nona arte, que ainda é marginalizada e pouco pesquisada, pois ainda são vistas como um mero entretenimento infantil.
As histórias em quadrinhos são vistas de forma negativa, muitos artistas desta área ainda se sentem constrangidos ao serem denominados quadrinistas, talvez pela conotação de uma arte feita para crianças, preferem ser chamados de “ilustradores”, “artistas comerciais” ou “cartunistas”, por exemplo. Desta forma, generalizou-se uma certa “baixa-estima”, agravada pelo fato de a perspectiva histórica – que seria capaz de contradizer esta imagem negativa – ter sido obscurecida.
Sinto que uma reversão deste processo está acontecendo com o atual reconhecimento que os autores de quadrinhos tem, como o caso de Art Spiegelman, autor de Maus: relato de um sobrevivente que foi o primeiro quadrinho a ganhar o Prémio Pulitzer de jornalismo. E a adoção pelo governo de várias obras em quadrinhos para distribuição em escolas públicas, isso tudo faz com que se crie uma valorização nas histórias em quadrinhos como uma forma de construção das representações sociais.
Leia o que o editor do BLOG DOS QUADRINHOS, Paulo Ramos postou:
“Uma dica aos professores de cursos pré-vestibulares: digam aos alunos que a nova prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) deve manter a tradição de usar histórias em quadrinhos nas questões.
Outra sugestão: digam aos estudantes que há chances reais de caírem na prova gêneros dos quadrinhos que transitam em veículos midiáticos de grande circulação ou acesso.
Tradução disso: as questões deverão se pautar em charges, tiras cômicas e cartuns.
Se os alunos perguntarem como você, professor, sabe disso, diga o óbvio: sua leitura se pauta nas edições anteriores do Enem e no simulado da prova, divulgado nesta semana.
O simulado tenta apresentar alguns modelos de questões para que os estudantes possam adotar como parâmetro para a prova, que será realizada nos dias 3 e 4 de outubro.
O novo Enem - que antes era realizado num dia só - vai abordar quatro campos temáticos: ciências humanas, ciências da natureza, matemática e linguagens e códigos.
Em dois testes do simulado, os organizadores da prova usaram um cartum do argentino Quino - criador da Mafalda - e uma tira de Chico Bento, de Mauricio de Sousa.”
“O exame - que é elaborado pelo governo federal - ganhou mais destaque neste ano por funcionar como substitutivo do vestibular para algumas universidades, a maioria federais.
As edições passadas da prova costumavam também trabalhar charges e tiras. A leitura de textos em outras linguagens - caso dos quadrinhos - é um dos conteúdos exigidos na prova.“
Will Eisner, um dos maiores quadrinistas do mundo criou muitas histórias em quadrinhos com temática adulta; sendo também um teórico da nona arte, criou uma expressão muito usada para designar este tipo de arte, a “arte seqüencial”:
“A configuração geral da revista de quadrinhos apresenta uma sobreposição de palavra e imagem, e, assim, é preciso que o leitor exerça as suas habilidades interpretativas visuais e verbais. As regências da arte (por exemplo, perspectiva, simetria, pincelada) e as regências da literatura (por exemplo, gramática, enredo, sintaxe) superpõem-se mutuamente. A leitura da revista de quadrinhos é um ato de percepção estética e de esforço intelectual.”
“Em sua forma mais simples, os quadrinhos empregam uma série de imagens repetitivas e símbolos reconhecíveis. Quando são usados vezes e vezes para expressar idéias similares, tornam-se uma linguagem – uma forma literária, se quiserem. E é essa aplicação disciplinada que cria a ‘gramática’ da arte seqüencial.”
EISNER, Will. Quadrinhos e Arte Seqüencial. São Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 8.
Desta forma, torna-se válido estudar a História por meio da leitura de Histórias em Quadrinhos. Principalmente quando se tem grandioso acervo, cujas imagens esclarecem de forma brilhante o cotidiano de dada época. É assim com a História do Brasil, é assim com Angelo Agostini, grande editor, chargista, repórter visual, ilustrador e quadrinista... assunto de meu próximo post.
aguardem.
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Não se esqueça de...Hipátia de Alexandria

Pintada em uma sala do palácio do Vaticano(que ironia) por Rafael, “A Escola de Atenas”, represeta de forma idealizada e renascentista, vários filósofos gregos e não-gregos, inclusive Hipátia de Alexandria, a filósofa neoplatônica, está vestida de branco, logo a baixo do grupo de Sócrates
Tocou-me profundamente a história da vida de Hipatia de Alexandria, filósofa, matemática e última diretora da Biblioteca de Alexandria.
Ela nasceu em Alexandria por volta de 370 d.C. filha de Theon conhecido filósofo e professor na Academia de Alexandria. Pouco se sabe da vida e obra desta grande mulher a quem atribuem a invenção do densímetro, do hidrômetro, do planisfério e do astrolabio, além de desenvolver estudos sobre a álgebra e tratados sobre Ptolomeu e Euclides.
Como era uma grande defensora do livre pensamento e seus estudos Neoplatônicos defendiam a ideia de que o universo seguia uma mecânica celeste, a deixavam na linha de frente contra os preceitos religiosos do cristianismo, pois segundo ela o universo seguia uma sinfonia que era regida pelas leis da matemática
Hipatia desta forma se tornou o símbolo do paganismo que a nova religião cristã triunfante combatia ferozmente.
Quando Teodósio se tornou papa (379-392) várias transformações ocorreram, uma delas foi a destruição, com o seu aval, de todas as instituições não-cristãs, com o intuíto de combater as heresias, em vários pontos da Europa e da África, incluindo o Egito.
Com isso, sinagogas, templos, academias de estudo e a Biblioteca de Alexandria foram completamente destruídos, neste cenário caótico o futuro de Hipátia estava claramente correndo perigo, mas ela não fugiu e não se intimidou, afinal ela representava naquele momento, a guardiã de todo o conhecimento do mundo antigo acumulado por mais de 5.000 anos. Como sabemos ela não conseguiu salvar todo conhecimento da turba assassina e ignóbil que os homens se tornam quando são movidos pela fé, no caso a cristã, nem sua própria vida ela conseguiu proteger deste lobo ocultado em vestes papais.
Muitos acreditam que este acontecimento marca o início do mergulho do nosso mundo nas trevas do conhecimento, que ocultam a luz com obscurantismos e nos embotam com verdades imutáveis e pré-estabelecidas.
Hipátia de Alexandria disse:
"Reserve o seu direito a pensar, mesmo pensar errado é melhor do que não pensar."
“Governar acorrentando a mente através do medo de punição em outro mundo é tão baixo quanto usar a força.”
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segunda-feira, 27 de julho de 2009
Deja vú
Deja vú
Falha na Matrix
THE MATRIX
Written by
Larry and Andy Wachowski
April 8, 1996
Esse texto pode começar com uma piada entre amigos reunidos, onde um deles depois de dizer que mora longe, alfineta o outro com a seguinte frase “ah, mas pelo menos eu tenho internet em casa” causando risada de todos os demais acerca de sua intervenção sobre o fato de o amigo não ter internet em casa.
Pois bem, veremos algumas reflexões a respeito do roteiro The Matrix e a problematica que ele apresenta em relação a pós-modernidade. The Matrix é um roteiro que originou a produção cinematográfica norteamericana e australiana lançada em 1999, dos gêneros ação e ficção científica, realizado pelos irmãos Wachowski.
Os diálogos são essenciais em Matrix, eles brotam das necessidades dos personagens, dos conflitos e servem como força motora para o desenrolar da história. Os diálogos trazem muitas questões sobre o ser humano, esse recurso faz dos diálogos construções bem engrenadas e funcionais ao propósito do roteiro.
A história contada no roteiro The Matrix gira em torno das disputas entre os seres humanos e as máquinas, por volta do ano de 2200, os homens lutam contra sua criação, a Inteligência Artificial. Em ato desesperado o homem causou um cataclismo nuclear, cobrindo o céu, deixando a Terra em grande escuridão, evitando assim que as máquinas recebessem energia solar. Culpando os homens pela tragédia universal, as máquinas se rebelaram e os escravizaram, adotando-os como fonte de energia, decidem cultivá-los como fossem plantas. Diz um dos personagens
principais, Morpheus (nome do deus grego do sonho) que tripulava a nave Nabudonosor (rei babilônico atormentado pelos sonhos): “O corpo humano gera mais bioeletricidade do que uma bateria de 120 volts e mais de 25 mil BTUs (unidade térmica britânica) de calor corpóreo. Combinado com uma espécie de fusão, as máquinas encontraram mais energia do que jamais precisariam”. Enquanto os corpos humanos reais estavam imersos em ‘campos’ de cultivo, suas mentes recebiam programas de realidade virtual, o qual simulava o mundo, a sociedade e a humanidade do final do século XX, um cyber programa chamado Matrix.
A alegoria pode ser comparada também com o processo acelerado de evolução técnica e cientifica que estamos vivendo, rápido e veloz tem sido esse movimento. O homem inventou máquinas, descobriu técnicas que lhe possibilitaram inventar novas máquinas que por sua vez lhe possibilitou descobrir e inventar novas técnicas e novas máquinas, sucessivamente, cada vez mais aprimoradas. E então de repente se da conta de que, acessoriamente, criou riscos e perigos, de controle dificil e as vezes impossível, no trabalho, nos transportes, nas mais diversas situações do dia-a-dia humano.
Surgiu no fim da década de 50 do século passado uma estética adequada a esse novo mundo, pós-industrial, dominado pelos meios de comunicação que velozmente transmitem informação em massa. Micro computadores, fax, satelites, chip, néon, i’pods, “mp tudo”, computadores de bolso que podem nos conectar a qualquer hora e a qualquer momento com qualquer lugar. Um mundo high-tech. Essa nova forma estética nasceu na arquitetura italiana esboçando uma reação à universalidade e racionalidade, propondo um retorno ao passado por materiais, formas e valores simbólicos ligados à cultura local. Tal estética caracteriza-se pela desconstrução da forma.
A desconstrução surge como parte de uma critica abrangente ao “pensamento ocidental”, uma estratégia subversiva unida a um ecletismo que nos permite o uso de coisas variadas. Na “Era da informatica”, na sociedades pós-industriais baseadas na informação, lidamos mais com os signos do que com as coisas, linguagem. Como por exemplo, existe hoje no site de relacionamentos Orkut uma ferramenta acessório chamada BuddyPoke onde o utilizador produz um avatar que o represente virtualmente, e a partir desse avatar é que ele abraça, beija, sauda, comprimenta seus amigos, que boa parte só conhecem pela sua figura repruduzida na tela do computador. Num mundo cada vez mais domesticado pela tecnologia, no qual muitas vezes as relações entre os homens estão condicionadas pelos instrumentos criados pela tecnologia.
No roteiro de The Matrix, uma única cidade humana ainda resistia em missões contra as máquinas, Zion. Morpheus, um dos lideres dessas missões esperava encontrar o suposto “escolhido” para libertar o mundo da ditadura das máquinas. O escolhido revelado posteriormente é Thomas Anderson que tem como profissão ser um operador de sistemas. À noite Anderson é um hacker (originalmente, são hackers indivíduos que elaboram e modificam software e hardware de computadores, seja desenvolvendo funcionalidades novas, seja adaptando as antigas. Os Hackers utilizam toda a sua inteligência para melhorar softwares de forma legal. Os hackers geralmente são pessoas com alta capacidade mental e com pouca atividade social). Como hacker Anderson se codnomina Neo, um possível anagrama para Novo; One, Um e de Eon variante de Aeon, "Eterno". Neo alimenta angústias existenciais, perguntas que vem do sentir que algo está errado em sua vida, mas ele, de imediato não sabe o quê, procura respostas para compreender mais sobre si, sobre sua existência, Neo é um personagem movido por essa busca. Suas angustias se sintetizam na pergunta: “O que é Matrix?”.
Nietzsche acredita que a criação de valores supremos significou niilismo, pois trocou-se a vida instintiva por conceitos, ideais inatingiveis de bom, belo, etc. Valores estes que serviram para acalmar as angústias e justificar a existência. Nietzsche aposta na vida instintiva, na intensificação dos sentidos, do prazer, uma vida enraizada no presente e aberta ao devir, tudo isso culminaria na transvaloração e o surgimento do super-homem.
O roteiro de The Matrix está repleto de mensagens sutis, dentre as quais a de que a máquina dificilmente controlará o homem, pois seu "comportamento" é baseado em programas e programas podem ser entendidos pela complexa mente humana que transcende a simples racionalidade da lógica ao constituir seu caráter instintivo. Máquinas vêm de um mundo feito de regras por isso podem ser vencidas pela força instintiva e impulsiva de Neo, negar impulsos é negar tudo o que nos torna humanos.
E Neo, pode representar esse super-homem. Neo ao compreender Matrix, e perceber como funcionam as coisas além da realidade virtual, se liberta do julgo de valores que lhes pareciam intrinsicos a sua existência, valores que lhe foram embutidos quando nascera. Ao nascer individuos, assim como Neo, são imbuídos de valores num ato violento, e raras vezes esses individuos avaliam esses valores, que lentamente se agregam a nós e acabam-se por se identificar a nós. Valores que se manifestam através dos estatutos da linguagem, que nos é posta pelas forças de poder como um programa cibernético logo quando nascemos. Nos disciplinamos a não a refletir acerca da genealogia das nossas idéias. O que significa? Como foram criados os termos?
E nessa teia cotidiana acabamos por não cogitar que a verdade é também uma construção lingüística, amparada por estatutos de poder, onde toda sociedade possui um discurso, uma política geral de verdade, construída para legitimar discursos, onde distinguir o que é verdadeiro do que é falso, e fazer isso funcionar, é resultado das disposições dos sistemas de poder, econômico ou político que ela, a verdade, exerce. Verdade para exercer controle, para evitar desordem. Esse poder ampara a verdade já que ela o serve muitíssimo bem, sendo força reguladora para um regime da verdade, que passa por nossa vida despercebida, como se a palavra representada realmente desse conta de representar as coisas do mundo.
O roteiro, contribui ao trazer a cena certas questões fundamentais, como quando explora o tema da realidade confrontada à ilusão do quotidiano. O que é o real? Quando Neo descobre que a Matrix é um programa de computador criado para controlar a vida dos seres humanos e que ele pode ser o predestinado a salvar a humanidade seus objetivos tornam-se mais claros. Neo quer ser dono de suas ações, ele diz não acreditar no destino, "Por que não me agrada saber que não tenho controle sobre minha vida". Matrix representa a prisão de onde ele deseja escapar. Para isso ele precisa superar suas dúvidas interiores, pois seus valores, que são seus piores obstáculos, pois estão em demasia arraigados em formas já corrompidas, que agem em suas vidas como um peso morto. Para atingir seu objetivo, Neo precisa libertar sua mente.
Neo guarda seus trabalhos como hacker, no fundo falso de um livro chamado "Simulacros e Simulação", e abre o livro no capítulo "Sobre o niilismo", sugestivo, já que Neo vivia infeliz e insatisfeito com os limites apertados de sua existência.
Alguns vêem a pós-modernidade numa esperança pessimista, outros a vêem de maneira otimista, e uns mais corajosos assumem o carater trágico que ela carrega.
O livro que aparece no filme “Simulacros e Simulação” foi escrito pelo professor, pensador francês que se enquadra na primeira vertente, Jean Baudrillard, morto em 2007 com 79 anos, que fez algumas ressalvas em relação à interpretação de suas idéias no roteiro de Matrix, em entrevista concedida à revista Época em 2003.
Jean Baudrillard diz ser um dissidente da verdade, não crer na idéia de discurso de verdade, de uma realidade inquestionável e única.
“(...) Desenvolvo uma teoria irônica que tem por fim formular hipóteses. Estas podem ajudar a revelar aspectos impensáveis. Procuro refletir por caminhos oblíquos. Lanço mão de fragmentos, não de textos unificados por uma lógica rigorosa. Nesse raciocínio, o paradoxo é mais importante que o discurso linear. Para simplificar, examino a vida que acontece no momento (...) Os signos evoluíram, tomaram conta do mundo e hoje o dominam. Os sistemas de signos operam no lugar dos objetos e progridem exponencialmente em representações cada vez mais complexas. O objeto é o discurso, que promove intercâmbios virtuais incontroláveis, para além do objeto (...). Atualmente, cada signo está se transformando em um objeto em si mesmo e materializando o fetiche, virou valor de uso e troca a um só tempo. Os signos estão criando novas estruturas diferenciais que ultrapassam qualquer conhecimento atual. Ainda não sabemos onde isso vai dar (...)”. (BAUDRILLARD, 2003)
Baudrillard, porém diz que nós não estamos preparados para enfrentar tal situação, a catástrofe simbólica, e a morte da crítica e das categorias racionais. Para ele “É necessário construir um pensamento que se organize por deslocamentos, um anti-sistema paradoxal e radicalmente reflexivo que dê conta do mundo sem preconceitos e sem nostalgia da verdade”.
Todavia, se tal pensamento se constituir pelos estatutos da linguagem, Baudrillard chegará ao ponto de partida de sua proposição.
Baudrillard diz que a interpretação sobre seu pensamento em Matrix é muito metafórica, e faz uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade, pois a diferença entre uma coisa e outra é menos evidente. “A questão agora é como podemos ser humanos perante a ascensão incontrolável da tecnologia”. Para Baudrillard, um pessimista, o mundo anuncia sempre o caráter de padecimento do espírito humano
Já uma perspectiva trágica de mundo, representa habilitar uma existência sem culpa, onde abondonamos a idéia de um mundo natural, onde leis e formas podem representá-lo, já que o mundo real não se oferece ao pensamento, e sendo assim, todo conhecimento é um crime contra a natureza. Vive-se a eterna repetição do diferente.
Cotidianamente vemos exemplos de mútua negação entre tecnologia e liberdade, duas criações da mente humana. Da imposição ao uso de determinados meios tecnologicos como o computador e de redes de informação como a internet, por exemplo. Interesses de mercado obrigam a sociedade a adotar novas necessidades tecnológicas, ou servindo para arrancar de uns para os outros piadas de péssimo tipo como a que vimos no começo do texto “ah, mas pelo menos eu tenho internet em casa”. Precisamos efetivamente desses meios, objetos em nossas relações cotidianas?
O roteiro de The Matrix aponta o simulacro, o hiper-real, a valorização da imagem ao real, onde a sensibilidade se molda por imagens sedutoras. Em parte o nosso tempo, o nosso ambiente pode significar basicamente isso, que, entre nós e o mundo há simulação, estão os meios tecnologicos de comunicação. Eles refazem o mundo a sua maneira, o hiper-realizam, o transformam num espetáculo. Não muito diferente do que fazemos nós historiadores, que não atingimos os fatos, pois seria impossível atingir o que já se esvaiu, então criamos discurso, comunicação, linguagem, refazemos o passado, o transformamos, moldamos o passado a partir de nossos interesses. Pois enquanto estivermos sujeitos aos estatutos da linguagem não teremos, não atingiremos a pura manifestação do ser. Manipulamos mais os signos do que de coisas que eles reresentam, isto contribui para que sujeitos como Thomas Anderson, pessimistas na pós-modernidade sintam-se sem referências.
Novas linguagens deveriam surgir para que um sujeito pudesse interpretar livremente a realidade, segundo os pressupostos que ela apresenta.
A narrativa complexa de Matrix possui dois planos espaços-temporais: primeiro o que ocorre no deserto do “Real”, a Terra após a vitória das Máquinas, que transformaram homens e mulheres em fonte de energia. Em Matrix, a distopia pressupõe a inversão fantástica da relação Homem x Máquina. Nela, são os homens que alimentam, com energia, as Máquinas Inteligentes e não o contrário. Com a revolta das Máquinas, o estranhamento atinge sua dimensão radical. É um cenário devastador que existe na superfície da Terra. Por outro lado, ainda neste plano espaço-temporal “real”, existem os homens que resistem no subterrâneo, habitando a cidade de Sião, cujo acesso é secreto (o que os agentes federais queriam era o código de acesso a Sião para poderem derrotar, de vez, a resistência humana).
Segundo, o que ocorre no mundo real simulado pela Matrix. É o cenário urbano da metrópole, com sua vida cotidiana, sua pseudo-concreticidade, onde as pessoas estão imersas no emprego e nas suas ambições triviais. Neo, ao se deslocar pela metrópole, indo ao Oráculo, observa, pela janela do carro, certo restaurante. Diz ele: “Eu comia ali, tenho essas lembranças da minha vida. Nenhuma delas aconteceu?”. Neo tinha não apenas memórias protéticas, mas uma realidade simulada, um simulacro do “real”. Como entre nós e o mundo, existe a linguagem.
Um produto da estética pós-moderna, The Matrix faz uma espécie de bricolagem de vários elementos: filmes de ficção científica, Histórias em Quadrinhos, filosofia, filme policial, religião (Budismo Tibetano, Messianismo Judaico-Cristão), elementos da cultura cyberpunk (movimento que tem raízes na ficção científica, mas imagina um futuro sombrio e ultra violento, onde a realidade virtual, mundos paralelos, controle financeiro de grandes corporações e a ação dos hackers formam o cenário), animes, informática. O roteiro de Matrix, levado a cena cinematográfica, necessita de altos efeitos especiais, onde se caracteriza o cinema pós-moderno, sobretudo na ficção cientifica, misturam-se coisas, estilos. Matrix é a épica batalha entre o homem e o computador, o homem e a tecnologia, homem e progresso, o homem seus valores portanto o homem e sua criação.
A noção de progresso não reconhece a pluralidade. O roteiro retrata a cultura totalitaria intolerante das máquinas, sujestivo não é?
A pós-modernidade anuncia a perda de um criterio universal de avaliação dos fenomenos, ela sujere a diferença e certa relatividade. Em contraposição a noção de progresso, que impõe igualdade e pensamentos totalitários. No campo histórico a pós-modernidade não representa progresso na forma de se pensar a história, mas numa outra maneira de pensá-la.
Em Matrix nós entramos no mundo de regras específicas, as regras são as mesmas de um mundo de computadores, algumas podem ser distorcidas e outras podem ser quebradas, pois são regras criadas para manter determinado poder. Porém, mesmo construindo as regras que envolvem o mundo da Matrix, na verdade as regras daquele mundo devem ser contestadas. A suposta Unidade (conhecimento cientifico) levou a ciência a opor o Homem (o conhecedor) à Natureza (o conhecido), decretando a quantificação do mundo natural e social para tornar as coisas previsiveis, programaveis. Intensificando, estetizando, o simulacro faz o real parecer mais real, dá-lhe uma aparencia desejavel (um ambiente povoado pela tecnociencia).
Trinity descreve as angústias de Neo: “Sei por que está aqui, Neo. Sei o que anda fazendo. Sei por que mal dorme; porque mora sozinho e porque, noite após noite, senta-se ao computador. Você o está procurando. É a pergunta que nos impulsiona, Neo. Foi a pergunta que te trouxe aqui, assim como eu. O que é a Matrix: A resposta está aí, Neo. Ela está à sua procura. E ela te encontrará se você desejar.” Ao dizer que “é a pergunta que nos impulsiona”, Trinity faz uma afirmação ontológica. A pergunta é um produto imediato da consciência que guia a atividade; todavia, isso não anula o fato de que o ato de responder é o elemento ontologicamente primário nesse complexo dinâmico. O que significa que, se a pergunta é o que nos impulsiona, é o ato de responder e a resposta enquanto ação moral, que irá constituir o elemento ontologicamente primário. É o que vemos no decorrer do roteiro de Matrix, onde o ato de responder permeia toda a trama narrativa, sendo, em última instância, as escolhas morais que Neo é obrigado a fazer.
O mundo de Matrix é sonho. Pergunta Morpheus: “Você já teve um sonho, Neo, que parecia ser verdadeiro? E se você não conseguisse acordar desse sonho? Como você saberia a diferença entre o mundo dos sonhos e o mundo real?”. Nesse caso, o mundo só existe agora como parte de uma simulação neurointerativa, um mundo de sonhos. Matrix é um mundo dos sonhos gerado por computador feito para nos controlar, para transformar o ser humano numa bateria.
Neo observa: “Você já se sentiu como se não soubesse se está acordado ou se está sonhando?”. E o amigo retruca: “Você precisa sair um pouco, cara”. Mas movido pela ética do trabalho estranhado, Neo observa: “Não posso. Preciso trabalhar amanhã.” Enfim, a metamorfose de Neo é a metamorfose de um sujeito da informação-mercadoria, totalmente desefetivado – no sentido da precarização - em sua capacidade de apreender o sentido do real. sonho, sonho real, se não acordasse como saberia a diferença do mundo dos sonhos para o mundo normal.
O diálogo entre Neo e seu gerente na empresa onde trabalha, MetaCortex, expõe o caráter de submissão de Thomas Anderson. Numa insurgência meramente individual, Neo possuía um caráter contingente e clandestino como hacker. Um traço da personalidade de Neo é a autonomia (Morpheus perguntar a Neo: “Você acredita em destino, Neo?” E ele diz: “Não gosto de pensar que não controlo minha vida.”). Diz o Gerente: “Você não aceita autoridade, Sr. Anderson. Você se acha especial, como se as regras não se aplicassem a você. Esta é uma das maiores empresas de software do mundo porque cada funcionário entende que faz parte de um todo. Logo, se um funcionário tem problema, a empresa tem problema. Chegou a hora de fazer uma escolha, Sr. Anderson. Ou você escolhe estar na sua mesa no horário a partir de hoje ou você escolhe achar outro emprego.” Nessa breve cena de diálogo com o Gerente da MetaCortex, Neo é provocado a fazer uma escolha moral: Enfim, Neo é obrigado a escolher, a agir. O roteiro dos Irmãos Wachowski é uma verdadeira metafísica da ação moral nas condições de uma sociabilidade barbarizada pelo hiperfetichismo do capital. Thomas Anderson possui, em si, traços de conformismo com a ordem vigente, paga seus impostos, ajuda a senhoria a levar o lixo para fora. Entretanto, Neo possui uma outra vida pessoal, “dentro de computadores”, a vida clandestina de Neo é seu grito de escape.
O discurso do agente das Máquinas diante de Morpheus é um libelo contra a civilização tecnológica, ironicamente dita por um representante das Máquinas Inteligentes “Os homens vão para uma área e se multiplicam, até que todos os recursos naturais sejam consumidos. A única forma de sobreviverem é indo para uma outra área. Há um outro organismo neste Planeta que segue o mesmo padrão um vírus. Os seres humanos são uma doença. Um câncer neste planeta. Vocês são uma praga!”. Em última instância, o que temos em Matrix é a luta do homem contra seus objetos estranhados, um estranhamento que atingiu o mais elevado nível de fetichismo, um fetichismo inteligente, capaz de se propor, inclusive, como senhor da natureza. As Máquinas Inteligentes em Matrix buscam a sua própria sobrevivência através da dominação sobre os homens, transformados em meras baterias de energia (metáfora do trabalho abstrato). Na lógica do que é diferente é ruim, portador de certa patologia. É a prefiguração mítica de uma inversão absoluta entre criador e criatura. A criatura domina e vive à custa do criador, criando um novo sistema de dominação. Nesse caso, Frankenstein não apenas foge, mas se impõe, domina, cria um sistema de dominação absoluta, de negação da personalidade vida de seu próprio criador. Deste modo, Matrix nos sugere, no limite, o absurdo do sistema, expondo, através de uma mitologia ficcional, a ficção-científica, o domínio pleno de objetos-fetiches inteligentes. E mais uma vez reiteramos: o interessante é que, é nesse cenário de fetiche quase-absoluto, que viceja as questões ético-morais.
Temos para finalizar, no roteiro a seguinte fala de Neo: “Eu sei que você está ai, eu posso sentir sua presença, sei que está com medo, está com medo de nós, está com medo de mudar, eu não conheço o futuro, não vim lhe dizer como isso terminará, eu vim dizer como vai começar, eu vou desligar o telefone e depois eu vou mostrar a essas pessoas o que você não quer que elas vejam, eu vou mostrar o mundo sem você, um mundo sem regras nem controle, sem limites ou fronteiras, um mundo onde qualquer coisa é possível. O que haverá depois você vai decidir!”.
Nesse ponto Neo levanta vôo. É o ápice da metáfora do filme. O homem que é livre para voar, moldar o mundo a sua maneira.
O destino não existe sem ironia.
Referências bibliográficas:
- GIANNATTASIO, Gabriel. Próxima Parada: O Haras Humano. Londrina: Atrito Art, 2004.
- JENKINS, Keith. A História Repensada. São Paulo: Contexto, 2005.
- NIETZSCHE, Friedrich. Segunda Consideração Intempestiva - Da utilidade e desvantagem da história para a vida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.
- Revista Época, 2003.
- ROSSET, Clément. O Princípio de Crueldade. Riode Janeiro: Rocco, 2002.
- SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 1993.
- WACHOWSKI, Larry; WACHOWSKI, Andy. The Matrix. EUA, 1996.
Falha na Matrix
THE MATRIX
Written by
Larry and Andy Wachowski
April 8, 1996
Esse texto pode começar com uma piada entre amigos reunidos, onde um deles depois de dizer que mora longe, alfineta o outro com a seguinte frase “ah, mas pelo menos eu tenho internet em casa” causando risada de todos os demais acerca de sua intervenção sobre o fato de o amigo não ter internet em casa.
Pois bem, veremos algumas reflexões a respeito do roteiro The Matrix e a problematica que ele apresenta em relação a pós-modernidade. The Matrix é um roteiro que originou a produção cinematográfica norteamericana e australiana lançada em 1999, dos gêneros ação e ficção científica, realizado pelos irmãos Wachowski.
Os diálogos são essenciais em Matrix, eles brotam das necessidades dos personagens, dos conflitos e servem como força motora para o desenrolar da história. Os diálogos trazem muitas questões sobre o ser humano, esse recurso faz dos diálogos construções bem engrenadas e funcionais ao propósito do roteiro.
A história contada no roteiro The Matrix gira em torno das disputas entre os seres humanos e as máquinas, por volta do ano de 2200, os homens lutam contra sua criação, a Inteligência Artificial. Em ato desesperado o homem causou um cataclismo nuclear, cobrindo o céu, deixando a Terra em grande escuridão, evitando assim que as máquinas recebessem energia solar. Culpando os homens pela tragédia universal, as máquinas se rebelaram e os escravizaram, adotando-os como fonte de energia, decidem cultivá-los como fossem plantas. Diz um dos personagens
principais, Morpheus (nome do deus grego do sonho) que tripulava a nave Nabudonosor (rei babilônico atormentado pelos sonhos): “O corpo humano gera mais bioeletricidade do que uma bateria de 120 volts e mais de 25 mil BTUs (unidade térmica britânica) de calor corpóreo. Combinado com uma espécie de fusão, as máquinas encontraram mais energia do que jamais precisariam”. Enquanto os corpos humanos reais estavam imersos em ‘campos’ de cultivo, suas mentes recebiam programas de realidade virtual, o qual simulava o mundo, a sociedade e a humanidade do final do século XX, um cyber programa chamado Matrix.
A alegoria pode ser comparada também com o processo acelerado de evolução técnica e cientifica que estamos vivendo, rápido e veloz tem sido esse movimento. O homem inventou máquinas, descobriu técnicas que lhe possibilitaram inventar novas máquinas que por sua vez lhe possibilitou descobrir e inventar novas técnicas e novas máquinas, sucessivamente, cada vez mais aprimoradas. E então de repente se da conta de que, acessoriamente, criou riscos e perigos, de controle dificil e as vezes impossível, no trabalho, nos transportes, nas mais diversas situações do dia-a-dia humano.
Surgiu no fim da década de 50 do século passado uma estética adequada a esse novo mundo, pós-industrial, dominado pelos meios de comunicação que velozmente transmitem informação em massa. Micro computadores, fax, satelites, chip, néon, i’pods, “mp tudo”, computadores de bolso que podem nos conectar a qualquer hora e a qualquer momento com qualquer lugar. Um mundo high-tech. Essa nova forma estética nasceu na arquitetura italiana esboçando uma reação à universalidade e racionalidade, propondo um retorno ao passado por materiais, formas e valores simbólicos ligados à cultura local. Tal estética caracteriza-se pela desconstrução da forma.
A desconstrução surge como parte de uma critica abrangente ao “pensamento ocidental”, uma estratégia subversiva unida a um ecletismo que nos permite o uso de coisas variadas. Na “Era da informatica”, na sociedades pós-industriais baseadas na informação, lidamos mais com os signos do que com as coisas, linguagem. Como por exemplo, existe hoje no site de relacionamentos Orkut uma ferramenta acessório chamada BuddyPoke onde o utilizador produz um avatar que o represente virtualmente, e a partir desse avatar é que ele abraça, beija, sauda, comprimenta seus amigos, que boa parte só conhecem pela sua figura repruduzida na tela do computador. Num mundo cada vez mais domesticado pela tecnologia, no qual muitas vezes as relações entre os homens estão condicionadas pelos instrumentos criados pela tecnologia.
No roteiro de The Matrix, uma única cidade humana ainda resistia em missões contra as máquinas, Zion. Morpheus, um dos lideres dessas missões esperava encontrar o suposto “escolhido” para libertar o mundo da ditadura das máquinas. O escolhido revelado posteriormente é Thomas Anderson que tem como profissão ser um operador de sistemas. À noite Anderson é um hacker (originalmente, são hackers indivíduos que elaboram e modificam software e hardware de computadores, seja desenvolvendo funcionalidades novas, seja adaptando as antigas. Os Hackers utilizam toda a sua inteligência para melhorar softwares de forma legal. Os hackers geralmente são pessoas com alta capacidade mental e com pouca atividade social). Como hacker Anderson se codnomina Neo, um possível anagrama para Novo; One, Um e de Eon variante de Aeon, "Eterno". Neo alimenta angústias existenciais, perguntas que vem do sentir que algo está errado em sua vida, mas ele, de imediato não sabe o quê, procura respostas para compreender mais sobre si, sobre sua existência, Neo é um personagem movido por essa busca. Suas angustias se sintetizam na pergunta: “O que é Matrix?”.
Nietzsche acredita que a criação de valores supremos significou niilismo, pois trocou-se a vida instintiva por conceitos, ideais inatingiveis de bom, belo, etc. Valores estes que serviram para acalmar as angústias e justificar a existência. Nietzsche aposta na vida instintiva, na intensificação dos sentidos, do prazer, uma vida enraizada no presente e aberta ao devir, tudo isso culminaria na transvaloração e o surgimento do super-homem.
O roteiro de The Matrix está repleto de mensagens sutis, dentre as quais a de que a máquina dificilmente controlará o homem, pois seu "comportamento" é baseado em programas e programas podem ser entendidos pela complexa mente humana que transcende a simples racionalidade da lógica ao constituir seu caráter instintivo. Máquinas vêm de um mundo feito de regras por isso podem ser vencidas pela força instintiva e impulsiva de Neo, negar impulsos é negar tudo o que nos torna humanos.
E Neo, pode representar esse super-homem. Neo ao compreender Matrix, e perceber como funcionam as coisas além da realidade virtual, se liberta do julgo de valores que lhes pareciam intrinsicos a sua existência, valores que lhe foram embutidos quando nascera. Ao nascer individuos, assim como Neo, são imbuídos de valores num ato violento, e raras vezes esses individuos avaliam esses valores, que lentamente se agregam a nós e acabam-se por se identificar a nós. Valores que se manifestam através dos estatutos da linguagem, que nos é posta pelas forças de poder como um programa cibernético logo quando nascemos. Nos disciplinamos a não a refletir acerca da genealogia das nossas idéias. O que significa? Como foram criados os termos?
E nessa teia cotidiana acabamos por não cogitar que a verdade é também uma construção lingüística, amparada por estatutos de poder, onde toda sociedade possui um discurso, uma política geral de verdade, construída para legitimar discursos, onde distinguir o que é verdadeiro do que é falso, e fazer isso funcionar, é resultado das disposições dos sistemas de poder, econômico ou político que ela, a verdade, exerce. Verdade para exercer controle, para evitar desordem. Esse poder ampara a verdade já que ela o serve muitíssimo bem, sendo força reguladora para um regime da verdade, que passa por nossa vida despercebida, como se a palavra representada realmente desse conta de representar as coisas do mundo.
O roteiro, contribui ao trazer a cena certas questões fundamentais, como quando explora o tema da realidade confrontada à ilusão do quotidiano. O que é o real? Quando Neo descobre que a Matrix é um programa de computador criado para controlar a vida dos seres humanos e que ele pode ser o predestinado a salvar a humanidade seus objetivos tornam-se mais claros. Neo quer ser dono de suas ações, ele diz não acreditar no destino, "Por que não me agrada saber que não tenho controle sobre minha vida". Matrix representa a prisão de onde ele deseja escapar. Para isso ele precisa superar suas dúvidas interiores, pois seus valores, que são seus piores obstáculos, pois estão em demasia arraigados em formas já corrompidas, que agem em suas vidas como um peso morto. Para atingir seu objetivo, Neo precisa libertar sua mente.
Neo guarda seus trabalhos como hacker, no fundo falso de um livro chamado "Simulacros e Simulação", e abre o livro no capítulo "Sobre o niilismo", sugestivo, já que Neo vivia infeliz e insatisfeito com os limites apertados de sua existência.
Alguns vêem a pós-modernidade numa esperança pessimista, outros a vêem de maneira otimista, e uns mais corajosos assumem o carater trágico que ela carrega.
O livro que aparece no filme “Simulacros e Simulação” foi escrito pelo professor, pensador francês que se enquadra na primeira vertente, Jean Baudrillard, morto em 2007 com 79 anos, que fez algumas ressalvas em relação à interpretação de suas idéias no roteiro de Matrix, em entrevista concedida à revista Época em 2003.
Jean Baudrillard diz ser um dissidente da verdade, não crer na idéia de discurso de verdade, de uma realidade inquestionável e única.
“(...) Desenvolvo uma teoria irônica que tem por fim formular hipóteses. Estas podem ajudar a revelar aspectos impensáveis. Procuro refletir por caminhos oblíquos. Lanço mão de fragmentos, não de textos unificados por uma lógica rigorosa. Nesse raciocínio, o paradoxo é mais importante que o discurso linear. Para simplificar, examino a vida que acontece no momento (...) Os signos evoluíram, tomaram conta do mundo e hoje o dominam. Os sistemas de signos operam no lugar dos objetos e progridem exponencialmente em representações cada vez mais complexas. O objeto é o discurso, que promove intercâmbios virtuais incontroláveis, para além do objeto (...). Atualmente, cada signo está se transformando em um objeto em si mesmo e materializando o fetiche, virou valor de uso e troca a um só tempo. Os signos estão criando novas estruturas diferenciais que ultrapassam qualquer conhecimento atual. Ainda não sabemos onde isso vai dar (...)”. (BAUDRILLARD, 2003)
Baudrillard, porém diz que nós não estamos preparados para enfrentar tal situação, a catástrofe simbólica, e a morte da crítica e das categorias racionais. Para ele “É necessário construir um pensamento que se organize por deslocamentos, um anti-sistema paradoxal e radicalmente reflexivo que dê conta do mundo sem preconceitos e sem nostalgia da verdade”.
Todavia, se tal pensamento se constituir pelos estatutos da linguagem, Baudrillard chegará ao ponto de partida de sua proposição.
Baudrillard diz que a interpretação sobre seu pensamento em Matrix é muito metafórica, e faz uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade, pois a diferença entre uma coisa e outra é menos evidente. “A questão agora é como podemos ser humanos perante a ascensão incontrolável da tecnologia”. Para Baudrillard, um pessimista, o mundo anuncia sempre o caráter de padecimento do espírito humano
Já uma perspectiva trágica de mundo, representa habilitar uma existência sem culpa, onde abondonamos a idéia de um mundo natural, onde leis e formas podem representá-lo, já que o mundo real não se oferece ao pensamento, e sendo assim, todo conhecimento é um crime contra a natureza. Vive-se a eterna repetição do diferente.
Cotidianamente vemos exemplos de mútua negação entre tecnologia e liberdade, duas criações da mente humana. Da imposição ao uso de determinados meios tecnologicos como o computador e de redes de informação como a internet, por exemplo. Interesses de mercado obrigam a sociedade a adotar novas necessidades tecnológicas, ou servindo para arrancar de uns para os outros piadas de péssimo tipo como a que vimos no começo do texto “ah, mas pelo menos eu tenho internet em casa”. Precisamos efetivamente desses meios, objetos em nossas relações cotidianas?
O roteiro de The Matrix aponta o simulacro, o hiper-real, a valorização da imagem ao real, onde a sensibilidade se molda por imagens sedutoras. Em parte o nosso tempo, o nosso ambiente pode significar basicamente isso, que, entre nós e o mundo há simulação, estão os meios tecnologicos de comunicação. Eles refazem o mundo a sua maneira, o hiper-realizam, o transformam num espetáculo. Não muito diferente do que fazemos nós historiadores, que não atingimos os fatos, pois seria impossível atingir o que já se esvaiu, então criamos discurso, comunicação, linguagem, refazemos o passado, o transformamos, moldamos o passado a partir de nossos interesses. Pois enquanto estivermos sujeitos aos estatutos da linguagem não teremos, não atingiremos a pura manifestação do ser. Manipulamos mais os signos do que de coisas que eles reresentam, isto contribui para que sujeitos como Thomas Anderson, pessimistas na pós-modernidade sintam-se sem referências.
Novas linguagens deveriam surgir para que um sujeito pudesse interpretar livremente a realidade, segundo os pressupostos que ela apresenta.
A narrativa complexa de Matrix possui dois planos espaços-temporais: primeiro o que ocorre no deserto do “Real”, a Terra após a vitória das Máquinas, que transformaram homens e mulheres em fonte de energia. Em Matrix, a distopia pressupõe a inversão fantástica da relação Homem x Máquina. Nela, são os homens que alimentam, com energia, as Máquinas Inteligentes e não o contrário. Com a revolta das Máquinas, o estranhamento atinge sua dimensão radical. É um cenário devastador que existe na superfície da Terra. Por outro lado, ainda neste plano espaço-temporal “real”, existem os homens que resistem no subterrâneo, habitando a cidade de Sião, cujo acesso é secreto (o que os agentes federais queriam era o código de acesso a Sião para poderem derrotar, de vez, a resistência humana).
Segundo, o que ocorre no mundo real simulado pela Matrix. É o cenário urbano da metrópole, com sua vida cotidiana, sua pseudo-concreticidade, onde as pessoas estão imersas no emprego e nas suas ambições triviais. Neo, ao se deslocar pela metrópole, indo ao Oráculo, observa, pela janela do carro, certo restaurante. Diz ele: “Eu comia ali, tenho essas lembranças da minha vida. Nenhuma delas aconteceu?”. Neo tinha não apenas memórias protéticas, mas uma realidade simulada, um simulacro do “real”. Como entre nós e o mundo, existe a linguagem.
Um produto da estética pós-moderna, The Matrix faz uma espécie de bricolagem de vários elementos: filmes de ficção científica, Histórias em Quadrinhos, filosofia, filme policial, religião (Budismo Tibetano, Messianismo Judaico-Cristão), elementos da cultura cyberpunk (movimento que tem raízes na ficção científica, mas imagina um futuro sombrio e ultra violento, onde a realidade virtual, mundos paralelos, controle financeiro de grandes corporações e a ação dos hackers formam o cenário), animes, informática. O roteiro de Matrix, levado a cena cinematográfica, necessita de altos efeitos especiais, onde se caracteriza o cinema pós-moderno, sobretudo na ficção cientifica, misturam-se coisas, estilos. Matrix é a épica batalha entre o homem e o computador, o homem e a tecnologia, homem e progresso, o homem seus valores portanto o homem e sua criação.
A noção de progresso não reconhece a pluralidade. O roteiro retrata a cultura totalitaria intolerante das máquinas, sujestivo não é?
A pós-modernidade anuncia a perda de um criterio universal de avaliação dos fenomenos, ela sujere a diferença e certa relatividade. Em contraposição a noção de progresso, que impõe igualdade e pensamentos totalitários. No campo histórico a pós-modernidade não representa progresso na forma de se pensar a história, mas numa outra maneira de pensá-la.
Em Matrix nós entramos no mundo de regras específicas, as regras são as mesmas de um mundo de computadores, algumas podem ser distorcidas e outras podem ser quebradas, pois são regras criadas para manter determinado poder. Porém, mesmo construindo as regras que envolvem o mundo da Matrix, na verdade as regras daquele mundo devem ser contestadas. A suposta Unidade (conhecimento cientifico) levou a ciência a opor o Homem (o conhecedor) à Natureza (o conhecido), decretando a quantificação do mundo natural e social para tornar as coisas previsiveis, programaveis. Intensificando, estetizando, o simulacro faz o real parecer mais real, dá-lhe uma aparencia desejavel (um ambiente povoado pela tecnociencia).
Trinity descreve as angústias de Neo: “Sei por que está aqui, Neo. Sei o que anda fazendo. Sei por que mal dorme; porque mora sozinho e porque, noite após noite, senta-se ao computador. Você o está procurando. É a pergunta que nos impulsiona, Neo. Foi a pergunta que te trouxe aqui, assim como eu. O que é a Matrix: A resposta está aí, Neo. Ela está à sua procura. E ela te encontrará se você desejar.” Ao dizer que “é a pergunta que nos impulsiona”, Trinity faz uma afirmação ontológica. A pergunta é um produto imediato da consciência que guia a atividade; todavia, isso não anula o fato de que o ato de responder é o elemento ontologicamente primário nesse complexo dinâmico. O que significa que, se a pergunta é o que nos impulsiona, é o ato de responder e a resposta enquanto ação moral, que irá constituir o elemento ontologicamente primário. É o que vemos no decorrer do roteiro de Matrix, onde o ato de responder permeia toda a trama narrativa, sendo, em última instância, as escolhas morais que Neo é obrigado a fazer.
O mundo de Matrix é sonho. Pergunta Morpheus: “Você já teve um sonho, Neo, que parecia ser verdadeiro? E se você não conseguisse acordar desse sonho? Como você saberia a diferença entre o mundo dos sonhos e o mundo real?”. Nesse caso, o mundo só existe agora como parte de uma simulação neurointerativa, um mundo de sonhos. Matrix é um mundo dos sonhos gerado por computador feito para nos controlar, para transformar o ser humano numa bateria.
Neo observa: “Você já se sentiu como se não soubesse se está acordado ou se está sonhando?”. E o amigo retruca: “Você precisa sair um pouco, cara”. Mas movido pela ética do trabalho estranhado, Neo observa: “Não posso. Preciso trabalhar amanhã.” Enfim, a metamorfose de Neo é a metamorfose de um sujeito da informação-mercadoria, totalmente desefetivado – no sentido da precarização - em sua capacidade de apreender o sentido do real. sonho, sonho real, se não acordasse como saberia a diferença do mundo dos sonhos para o mundo normal.
O diálogo entre Neo e seu gerente na empresa onde trabalha, MetaCortex, expõe o caráter de submissão de Thomas Anderson. Numa insurgência meramente individual, Neo possuía um caráter contingente e clandestino como hacker. Um traço da personalidade de Neo é a autonomia (Morpheus perguntar a Neo: “Você acredita em destino, Neo?” E ele diz: “Não gosto de pensar que não controlo minha vida.”). Diz o Gerente: “Você não aceita autoridade, Sr. Anderson. Você se acha especial, como se as regras não se aplicassem a você. Esta é uma das maiores empresas de software do mundo porque cada funcionário entende que faz parte de um todo. Logo, se um funcionário tem problema, a empresa tem problema. Chegou a hora de fazer uma escolha, Sr. Anderson. Ou você escolhe estar na sua mesa no horário a partir de hoje ou você escolhe achar outro emprego.” Nessa breve cena de diálogo com o Gerente da MetaCortex, Neo é provocado a fazer uma escolha moral: Enfim, Neo é obrigado a escolher, a agir. O roteiro dos Irmãos Wachowski é uma verdadeira metafísica da ação moral nas condições de uma sociabilidade barbarizada pelo hiperfetichismo do capital. Thomas Anderson possui, em si, traços de conformismo com a ordem vigente, paga seus impostos, ajuda a senhoria a levar o lixo para fora. Entretanto, Neo possui uma outra vida pessoal, “dentro de computadores”, a vida clandestina de Neo é seu grito de escape.
O discurso do agente das Máquinas diante de Morpheus é um libelo contra a civilização tecnológica, ironicamente dita por um representante das Máquinas Inteligentes “Os homens vão para uma área e se multiplicam, até que todos os recursos naturais sejam consumidos. A única forma de sobreviverem é indo para uma outra área. Há um outro organismo neste Planeta que segue o mesmo padrão um vírus. Os seres humanos são uma doença. Um câncer neste planeta. Vocês são uma praga!”. Em última instância, o que temos em Matrix é a luta do homem contra seus objetos estranhados, um estranhamento que atingiu o mais elevado nível de fetichismo, um fetichismo inteligente, capaz de se propor, inclusive, como senhor da natureza. As Máquinas Inteligentes em Matrix buscam a sua própria sobrevivência através da dominação sobre os homens, transformados em meras baterias de energia (metáfora do trabalho abstrato). Na lógica do que é diferente é ruim, portador de certa patologia. É a prefiguração mítica de uma inversão absoluta entre criador e criatura. A criatura domina e vive à custa do criador, criando um novo sistema de dominação. Nesse caso, Frankenstein não apenas foge, mas se impõe, domina, cria um sistema de dominação absoluta, de negação da personalidade vida de seu próprio criador. Deste modo, Matrix nos sugere, no limite, o absurdo do sistema, expondo, através de uma mitologia ficcional, a ficção-científica, o domínio pleno de objetos-fetiches inteligentes. E mais uma vez reiteramos: o interessante é que, é nesse cenário de fetiche quase-absoluto, que viceja as questões ético-morais.
Temos para finalizar, no roteiro a seguinte fala de Neo: “Eu sei que você está ai, eu posso sentir sua presença, sei que está com medo, está com medo de nós, está com medo de mudar, eu não conheço o futuro, não vim lhe dizer como isso terminará, eu vim dizer como vai começar, eu vou desligar o telefone e depois eu vou mostrar a essas pessoas o que você não quer que elas vejam, eu vou mostrar o mundo sem você, um mundo sem regras nem controle, sem limites ou fronteiras, um mundo onde qualquer coisa é possível. O que haverá depois você vai decidir!”.
Nesse ponto Neo levanta vôo. É o ápice da metáfora do filme. O homem que é livre para voar, moldar o mundo a sua maneira.
O destino não existe sem ironia.
Referências bibliográficas:
- GIANNATTASIO, Gabriel. Próxima Parada: O Haras Humano. Londrina: Atrito Art, 2004.
- JENKINS, Keith. A História Repensada. São Paulo: Contexto, 2005.
- NIETZSCHE, Friedrich. Segunda Consideração Intempestiva - Da utilidade e desvantagem da história para a vida. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2003.
- Revista Época, 2003.
- ROSSET, Clément. O Princípio de Crueldade. Riode Janeiro: Rocco, 2002.
- SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 1993.
- WACHOWSKI, Larry; WACHOWSKI, Andy. The Matrix. EUA, 1996.
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